DAVID ALANDETE – El País - 09/08/2010
Tradução de Antonio de Freitas
Tony Judt, um dos historiadores e pesquisadores da Europa do final do século XX mais respeitados em sua profissão, faleceu na sexta-feira (06/08/2010) em sua residência de Nova York, segundo confirmou a Universidade de Nova York, para a qual trabalhava como professor. Tinha 62 anos e havia padecido, durante quase dois anos, dos devastadores efeitos da doença de Lou Gehrig, ou esclerose lateral amiotrófica.
Judt nasceu no seio de uma família judia do Reino Unido em 1948. Em sua juventude viveu num kibutz em Israel. A experiência na fazenda coletiva constituiu uma etapa importante de sua formação e lhe marcou como sionista de esquerda durante alguns anos. Chegou a servir como motorista voluntario na Guerra dos Seis Dias, que enfrentou Israel contra a coalizão de países árabes em 1967.
Aquele fervor sionista de juventude, contudo, não durou muito. Prontamente mudou seu esquerdismo com toques radicais por uma postura mais social-democrata. E, em seus textos, criticou não apenas o poder e a proeminência internacional dos Estados Unidos, mas também o peso das instituições judias dentro da arquitetura política norte-americana.
Sua obra mais famosa, publicada em 2005, é ‘Posguerra: Uma historia da Europa desde 1945’, uma crônica monumental do continente nos anos posteriores à II Guerra Mundial. Em sua análise, Judt afirma que a cooperação dos países europeus nos 30 anos posteriores à queda de Adolf Hitler demonstra que o pacifismo e o multilateralismo podem gerar uma estabilidade e uma prosperidade duradouras. Com ‘Posguerra’ ficou finalista ao Prêmio Pulitzer em 2006.
"América terá o maior Exército e a China criará mais produtos, e mais baratos", escreve na conclusão do livro. "Porém, nem a América nem a China dispõem de um modelo útil que sirva universalmente. Apesar dos horrores de seu passado recente - e em grande parte, graças a eles-, eram os europeus os que agora estavam genuinamente posicionados para oferecer ao mundo algum modesto conselho sobre como evitar repetir os erros do passado. Poucos haveriam dito há 60 anos, mas pode ser que o século XXI ainda pertença aos europeus".
Era professor da Universidade de Nova York desde 1987. Nessa instituição ajudou a fundar o Instituto Remarque, onde pesquisava e ensinava historia recente de Europa. Judt conta com nove livros, sobretudo respeitadas análises nesse campo. Ademais, colaborava com a revista New York Review of Books, na que consagrou sua mudança de ideas sobre o conflito árabe-israelense.
Num texto polêmico de 2003, proclamou que Israel era um "anacronismo" e pediu a criação de um Estado binacional para árabes e judeus. Um de seus últimos artigos defendia que as críticas aos atos de força do Executivo de Israel não estão motivadas pelo antissemitismo e que o abuso deste qualificativo era perigoso para a memória do Holocausto.
No outono de 2008 foi-lhe diagnosticado esclerose lateral amiotrófica (ELA), que provoca uma progressiva paralisação dos músculos. Trata-se da mesma doença degenerativa que padece o cientista Stephen Hawking. Judt estava paralisado de pescoço para baixo. Custava-lhe tragar, falar, inclusive sustentar a mandíbula. Necessitava ajuda para praticamente tudo.
Ao longo de seus últimos meses, escreveu sobre sua doença e sobre suas impressões da vida, o que representou um giro na sua carreira e a inauguração de uma nova etapa de reflexão muito mais pessoal. Em questão de meses, Tony Judt se converteu em tetraplégico, necessitando de um tubo de oxigênio para respirar. Sua mente, porém, estava intacta, e seguiu produzindo suas lúcidas análises sem qualquer tipo de interrupção, até seu último dia de vida.

Uma escavação levanta a polêmica sobre a localização do único recinto romano de Tarragona que permanecia desaparecido
F. B. - Tarragona - 29/07/2010
Tradução de Antonio de Freitas Jr.
Acabou o debate: o único templo romano documentado de Tarragona que permanecia perdido estava oculto durante um par de milênios no subsolo da catedral. Até agora. Após quase três séculos de polêmicas e controvérsia entre arqueólogos, uma escavação codirigida pela Prefeitura, o Governo provincial e o Arcebispado de Tarragona -proprietário da catedral assentada sobre o recinto romano- localizou os cimentos do templo e de parte da escada construída para aceder a seu interior, a uns dois metros de profundidade, quase no coração da basílica.
Os trabalhos não permitiram por enquanto determinar o período exato da construção romana, cujo templo erigido em homenagem ao imperador Augusto se conhecia graças à obra de Tácito. Os trabalhos deste pesquisador romano permitem presumir que o templo foi mandado construir no ano 15 d.C. Os arqueólogos consideram válido, sem provas concluintes, que foi edificado ao redor do século I d.C. A catedral de Tarragona, por sua vez, foi erguida no século XII sobre os cimentos de uma catedral visigótica, que por sua vez se sobrepôs ao mesmo templo romano. A escavação revelou que a estrutura deste santuário dedicado a Augusto estava composta por um recinto de oito colunas, uns 30 metros de altura e 45 de largura que em sua época se erguia quase 25 metros do solo.
Após confirmar o achado, o trabalho dos arqueólogos consistirá em pôr em ordem o quebra-cabeças cronológico que se amontoa na basílica de Tarragona. "Trataremos de determinar com maior precisão que construção e de que época ocupou este espaço no qual se encontrava o templo. Tentaremos fazer uma espécie de mapa do tempo", assinalou Imma Teixell, a arqueóloga municipal responsável pelo projeto. Os dados obtidos serão copilados numa documentação que será publicada no final do ano.
O último templo de Tarraco se esconde sob a catedral
FERRAN BALSELLS - Tarragona – El País - 03/07/2010
Tradução de Antonio de Freitas Jr.
A areia milenar que se esconde debaixo do piso da catedral de Tarragona reapareceu ontem (02/07) pela primeira vez desde o século XIV para que os arqueólogos pudessem aceder às ruínas do templo de Augusto, último santuário romano da cidade cujo rastro segue desaparecido. Os trabalhos, dirigidos por técnicos da Prefeitura, do Governo provincial e da Conferência Episcopal Tarraconense, se estenderão até o dia 31 de julho para certificar o final da maior incógnita de Tarraco: o templo erigido no século I em homenagem ao imperador romano, que se instalou na cidade entre os anos 27 e 24 antes de Cristo. Todos os indícios, incluídas as prospecções geofísicas realizadas em 2007, situam este santuário no coração da catedral.
Os especialistas consideram provado que a catedral foi erguida no século XII sobre os cimentos de uma catedral visigótica, por sua vez edificada sobre uma mesquita árabe que havia sobreposto a um templo. "É o templo de Augusto ou algo muito parecido", assegura Josep Maria Macies, arqueólogo do Instituto Catalão de Arqueologia Clássica. Os técnicos admitem que a certeza do achado é quase absoluta. A procura pode ser seguida diariamente através do blog http://blogs.sapiens.cat/recercatempleaugust, criado pelos responsáveis da escavação.

RAFA CERVERA – El País - Babelia – 19/06/2010
Tradução de Antonio de Freitas Jr.
Patti Smith, antiga e eterna companheira do fotógrafo, escreve as memórias de ambos desde que se conheceram em Nova York nos anos sessenta e que o artista lhe encarregou pouco antes de morrer. O livro, que acaba de ser publicado na Espanha, é um relato comovedor do afã de uns seres dispostos a pôr suas almas a serviço da arte, inspirados por Rimbaud, Dylan, Genet e outros nomes idolatrados.
‘Nada está terminado até que tu o vejas’, lhe dizia Robert Mapplethorpe a Patti Smith quando, esperando sua opinião, ele lhe mostrava aquelas que então eram as suas primeiras fotos. Ambos eram essas crianças a que alude o título, dois talentos tentando florescer na Nova York de finais dos anos sessenta, lutando quase com desesperação por plasmar sua arte e obter um reconhecimento que ninguém se atreveria a negar-lhes hoje. Essa Nova York boêmia, com o hotel Chelsea, o Max's Kansas City, St. Mark's Place e a galáxia Warhol como pontos cardinais, é o cenário pelo qual transcorre este deslumbrante texto biográfico. Através de suas páginas, Smith rende homenagem ao que foi seu amante, cúmplice e, acima de tudo, alma gêmea.
‘Éramos unos niños’ (‘Éramos umas crianças’, em português) conta esse trajeto vital, tomando a estreita relação entre Mapplethorpe e a narradora coprotagonista como nó. Mortos de fome e também cheios de ambição, se apoiaram mutuamente para encontrar seus próprios caminhos artísticos. Assim, descobrimos como Mapplethorpe falava insistentemente a Smith de seu potencial como cantora de ‘rock & roll’; de sua parte, foi ela que o convenceu a abandonar as ‘collages’ e começar a tomar suas próprias fotografias. Os desencontros -motivados em muitos casos pela progressiva imersão do fotógrafo no submundo gay que alimentou o lado mais chocante de seu trabalho- estremeceram em ocasiões a relação. A prosa de Smith é firme, não se deixa levar por rancores nem sentimentalismos, e cumpre de maneira formidável o objetivo buscado: falar do lado humano de um artista que foi polêmico e que em mais de uma ocasião se viu estrangulado pela natureza de sua própria obra. "Robert elevou aspectos da experiência masculina", explica Smith, "imbuindo à homossexualidade de misticismo. Como disse Cocteau de Genet, sua obscenidade nunca é obscena".
A necessidade de escrever sobre seu antigo, ainda que em realidade eterno, companheiro chegou quase no mesmo instante em que tocou o telefone da casa da família Smith e Edward Mapplethorpe comunicou o falecimento de seu irmão, em uma fria manhã de março de 1989. Com uma voz tão poderosa como a que brota de seus poemas e canções, Smith nos mostra esse itinerário compartido, recheado de piadas e salpicado por personagens tão únicos como o momento histórico - que vai de 1967 a 1978 - no qual se desenvolve o núcleo do texto. As noites no quarto detrás do Max's Kansas City, onde o apolíneo Mapplethorpe é desejado pela corte de Warhol, ao mesmo tempo em que a andrógina Smith é completamente ignorada, até que decide cortar o cabelo à Keith Richards e consegue captar a caprichosa atenção dos ilustres paroquianos. Os encontros com Corso, que citando a Mallarmé assegura que os poetas não terminam os poemas, os abandonam; e com Ginsberg, que tentou ficar com ela ao confundi-la com um rapaz enquanto ela se morria de fome diante de um sanduíche que não podia pagar. Um encontro com uma desolada Janis Joplin à que Smith lisonjeia chamando-a "pérola" (‘pearl’, em inglês), palavra que se converterá no título do álbum póstumo da texana. Porém, acima destas e de outras piadas, ‘Éramos unos niños’ é também o sólido e emotivo relato da relação simbiótica entre dois personagens que não pareciam estar completos sem o outro. E nos mostra o comovedor afã de uns seres dispostos a pôr suas almas a serviço da arte, aferrados a seus respectivos sonhos, inspirados por Rimbaud, Dylan, Genet e outros nomes idolatrados.
Smith conta como se alternavam para entrar nas exposições de museus que lhes interessavam, porque o dinheiro não dava para duas entradas. Em uma ocasião, quando ela, maravilhada, se dispunha a narrar-lhe as obras que havia visto, ele cortou-a dizendo: "Algum dia entraremos juntos para ver as exposições e, ademais, a obra exposta será nossa". Nenhum dos dois imaginava então que suas vidas se converteriam em existências lendárias, uma historia digna não somente de ser contada, mas também de ser admirada. Uma apaixonada e apaixonante odisséia vivida em uma época na qual comprometer-se com a própria necessidade era quase um ato heróico. Consciente, talvez, de que aqueles dias que intercambiaram suas energias formam também parte de sua obra, pouco antes de falecer Mapplethorpe pediu a Smith que escrevesse a historia de ambos. Agora, aquela velha frase, ‘nada está terminado até que tu o vejas’, se revela como algo profético. Porque a historia foi contada através do olhar e do verbo da única pessoa capaz de elevá-la ao nível que merece.

EFE - Rio de Janeiro - El País - 22/06/2010
Tradução de Antonio de Freitas Jr
O arquiteto espanhol Santiago Calatrava apresentou no Rio de Janeiro a maquete de seu próximo projeto, o ‘Museu do Amanhã’, uma instituição dedicada à sustentabilidade e à ecologia que será construída na zona portuária da cidade. "Este é o projeto museístico mais importante que já fiz em toda minha carreira", assinalou o arquiteto, que mais uma vez inspirou-se no mundo vegetal para desenhar as linhas do edifício, esta vez nas formas da mata atlântica característica da região.
Em uma original apresentação do projeto, Calatrava fez ao vivo um croqui do que será o Museu do Amanhã, onde se apresentarão exposições sobre ciência, tecnologia e conhecimento com o objetivo de conscientizar sobre o futuro e a necessidade de adotar atitudes mais ecológicas. "A intenção é fazer um museu com um impacto econômico ínfimo: com materiais reutilizáveis e que seja energeticamente suficiente", afirmou Calatrava, que espera que o edifício sirva de exemplo para uma filosofia de vida mais sustentável.
Estrutura do edifício
Na maquete apresentada, o estilo do espanhol se percebe de imediato no exterior do museu, que constará de duas plantas e tem "uma estrutura simples, fácil de reconhecer, mas acima de tudo acessível”. O nível inferior estará rodeado por dois estanques de água que chegam até o mar, para refletir a importância deste bem, e ficará delimitado por duas zonas verdes que permitirão o acesso desde qualquer parte da alargada estrutura.
O teto do piso superior, ao qual se poderá aceder por duas rampas,estará composto por múltiplas placas solares que mudarão de posição durante o dia e oferecerão uma silhueta mutante ao visitante. "Deve ser um edifício vital porque é um museu sobre a vida", assegurou o espanhol, que valorou que a obra ofereça "uma pedagogia simples" às gerações futuras, para que sejam conscientizadas sobre a importância de conservar o meio ambiente.
As autoridades da cidade explicaram que o museu também servirá para revitalizar o porto do Rio de Janeiro, zona que na atualidade alberga uma feira e que no futuro deverá alojar parte das instalações logísticas dos Jogos Olímpicos de 2016. O Museu do Amanhã ocupará uma superfície de 12.500 metros quadrados no porto da cidade, terá um investimento de 130 milhões de reais (uns 73 milhões de dólares) e será inaugurado a finais de 2012, com motivo da Conferencia sobre Desenvolvimento Sustentável que a ONU organizará no Rio de Janeiro.

ANTONIO FRAGUAS – El País - Madrid - 16/06/2010
Tradução de Antonio de Freitas Jr.
A Biblioteca Nacional da Áustria (BNA), uma das cinco maiores coleções do mundo de livros e documentos dos séculos XVI a XIX, firmou um acordo de 30 milhões de euros com o buscador informático Google para digitalizar os 400.000 volumes desse período (120 milhões de páginas), informa a BNA num comunicado.
Esta instituição, localizada no palácio de Hofburg, em Viena, segue os passos de bibliotecas de renome como as das universidades de Roma, Florença, Harvard, Stanford e Oxford (também a Complutense de Madrid e do Institut d'Estudis Catalans) e permite assim o Google ampliar seu catálogo de 12 milhões de livros digitalizados, um projeto que desatou críticas de editores, governos e especialistas em direitos autorais que acusam o buscador de monopólio.
"Na Europa há poucos projetos semelhantes a este. É um passo importante", declarou numa coletiva de imprensa a diretora da BNA, Johanna Rachinger.
O acordo, o maior da Áustria dentre aqueles que reúnem iniciativa pública e privada, estabelece que o Google assumirá o custo da digitalização (de 50 a 100 euros por livro). A BNA custeará os gastos de preparação dos volumes para sua digitalização, ademais de armazenar os dados e fazê-los acessíveis ao público, informa o jornal Die Presse.
Os volumes escaneados, todos livres de direitos, estarão disponíveis aos internautas tanto na página do Google Livros, como na da biblioteca digital Europeana (www.europeana.eu) e na da própria BNA (www.onb.ac.at).
"Dado que os originais não podem ser consultados em nenhum caso, o processo de digitalização contribuirá também para a preservação desta valiosa coleção de livros", assinala a nota.
Um plano controvertido
Em 2005, Google Books começou a escanear livros e a oferecer fragmentos destes na Internet, alguns deles protegidos por direitos autorais. Em outubro de 2008, após duas ações judiciais, o buscador se viu obrigado a assinar um acordo milionário para indenizar autores e editores nos EUA.
O conteúdo do referido acordo ainda não foi ratificado pelos tribunais; de fato, o juiz que leva o caso obrigou às partes a introduzir no pacto mudanças substanciais após as queixas do Departamento de Justiça dos EUA, do governo alemão, dos especialistas em propriedade intelectual e das organizações de consumidores, que acusavam o Google de monopólio.
JUAN CRUZ / JAVIER RODRÍGUEZ MARCOS – El País - Madrid - 18/06/2010
Tradução de Antonio de Freitas Jr.
O escritor português e Prêmio Nobel José Saramago morreu ao redor das nove horas da manhã de hoje, hora de Brasília, aos 87 anos em sua residência na localidade de Tías (Lanzarote/Ilhas Canárias/Espanha). O autor de ‘A Jangada de Pedra’ foi poeta antes de ser romancista de sucesso e antes de ser poeta, foi pobre. Unido o jornalismo a estes outros três fatores (pobreza, poesia e romance) se entenderá a fusão entre preocupação social e exigência estética que marcou a obra do único Prêmio Nobel da língua portuguesa até hoje. Em 1998, o maior prêmio literário do planeta reconheceu um filho de camponeses sem terra, nascido em 1922 em Azinhaga, Ribatejo, a 100 quilômetros de Lisboa. Tinha três anos quando sua família emigrou para a capital, onde as penúrias rurais apenas se transformaram em penúrias urbanas. Assim, o futuro escritor formou-se na biblioteca pública de seu bairro enquanto trabalhava numa oficina, após abandonar a escola para ajudar a manter uma casa na qual já faltava seu irmão Francisco, dois anos mais velho que ele e morto logo depois da mudança.
‘As pequenas memórias’ (editadas em Espanha por Alfaguara, como todo o resto de sua obra desde que abandonou Seix Barral) é o título que Saramago pôs no relato de uma infância que sempre teve um pé na aldeia de onde havia emigrado. Seu romance ‘Levantado do Chão’ (1980) conta as peripécias de varias gerações de camponeses do Alentejo. Não foi seu primeiro romance, mas aquele que representou sua primeira consagração depois que ‘Manual de Pintura e Caligrafia’ rompera em 1977 um silêncio de quase 30 anos. Eram os anos que havia passado desde a aparição de ‘Terra do Pecado’, sua verdadeira, ainda que de pouco sucesso, estréia como romancista. Nessas três décadas Saramago trabalhou como administrador, empregado de seguradora e de uma editora; havia se casado e divorciado de sua primeira esposa, publicado três livros de poemas, ingressado no Partido Comunista -clandestino durante a ditadura de Salazar- e, acima de tudo, se consagrado como jornalista.
‘Levantando do Chão’ foi seguido por ‘Memorial do Convento’, em 1982, e dois anos mais tarde ‘O Ano da Morte de Ricardo Reis’. Centrada na figura do heterônimo de Fernando Pessoa, o grande poeta do Portugal moderno, o romance é um intenso retrato de Lisboa da mão de um poeta imaginário que, da mesma maneira que passou nove meses no ventre materno, há de passar um tempo equivalente desde a morte do homem que o criou antes de desaparecer definitivamente. A fama internacional chegou a Saramago precisamente com este romance escrito com uma rara intensidade poética no qual demonstra haver assimilado todas as lições da narrativa moderna. Numa conferencia pronunciada por esses anos 80 recordava o conselho que ele mesmo costumava dar aos leitores que diziam não entender bem seus livros por causa das misturas de vozes e a ausência de marcas convencionais nos diálogos: "Leia-os em voz alta". Funcionava.
Nesse tempo, a atividade de Saramago foi frenética. Uma produtividade que lhe acompanhou até sua morte, escrevendo incansavelmente romances, diários, obras de teatro e até um blog. Após a fábula ibérica ‘A Jangada de Pedra’ (1986), na qual Espanha e Portugal se desprendem literalmente do continente europeu e se lançam a flutuar sobre o Atlântico, chegaram ‘Historia do Cerco de Lisboa’ (1989) e ‘O Evangelho Segundo Jesus Cristo’ (1991). Sua visão heterodoxa do messias cristão levantou uma política que culminou quando o governo de seu país negou-se a apresentar o livro ao Prêmio Literário Europeu. Ferido com aquele gesto, Saramago se instalou em Lanzarote, Espanha, com Pilar del Río, sua segunda esposa e nova tradutora. A mesma polêmica de cores religiosas reproduziu-se em 2009 à luz da publicação de um romance considerado ofensivo pela hierarquia católica lusa, ‘Caim’. Meses antes, o escritor viu-se metido noutro rififi. Desta vez na Itália: sua editora de sempre, propriedade de Silvio Berlusconi, negou-se a publicar ‘O Caderno’, um livro baseado no blog do escritor, que sequer continha críticas ao primeiro-ministro italiano.
A publicação em 1995 de ‘Ensaio Sobre a Cegueira’, o relato de uma epidemia que converte em cegos os habitantes de uma cidade -Fernando Meirelles o levou ao cinema em 2008 com Julianne Moore como protagonista - abriu uma nova etapa na obra de José Saramago. Romances como ‘A Caverna’, ‘O Homem Duplicado’, ‘Ensaio Sobre a Lucidez’ e ‘As Intermitências da Morte’ levam ao terreno narrativo reflexões sobre o consumo, a sociedade de massas, o sistema democrático e a idéia da morte. Muitas delas parecem nascidas de uma pergunta: "Que aconteceria se?" Se a gente votasse massivamente em branco em umas eleições, se alguém decidisse viver à margem da economia capitalista, se se encontrassem dois homens totalmente idênticos. Outra dessas perguntas era o que aconteceria se a gente deixasse de morrer. José Saramago sabia que havia coisas que somente ocorriam na imaginação crítica de um escritor de romances.
MARINA GONÇALVES - Madrid - 15/06/2010
Tradução de Antonio de Freitas Jr.
"Cala boca, Galvão" está nos Trending Topics (os temas mais populares) mundiais do Twitter há pelo menos três dias. Uns dizem que é o novo videoclipe de Lady Gaga; outros que é uma campanha para salvar uma espécie rara de pássaros no Brasil. A verdade é que "Cala boca, Galvão" é uma grande brincadeira dos usuários brasileiros do Twitter - o país é o segundo do mundo em número de usuários, atrás dos estadunidenses. Galvão Bueno é um dos comentaristas esportivos mais conhecidos no país do futebol. E "cala boca" significa “cállate la boca”, em espanhol.
O comentarista esportivo brasileiro Galvão Bueno, que gerou o pedido no Twitter foi o grande tema da imprensa brasileira antes da estréia da seleção canarinho, ontem, às 15:30. Na noite de segunda-feira, dia 14 de junho, a TV Globo respondeu de maneira divertida à solicitação da torcida - que pedem na rede social que Galvão deixe de falar tanto durante as partidas - e criou um videogame com as frases mais populares do locutor, que está na África do Sul. O jogo se chama ‘Fala, Galvão!
A brincadeira começou na cerimônia de abertura do Mundial, na sexta-feira passada, dia 11 de junho, quando Galvão Bueno, jornalista da TV Globo, não parava de falar durante a transmissão. Os brasileiros começaram a tuitar a expressão. E depois de algumas horas a frase já estava no pico dos ‘Trendings Topics’. Os usuários que não sabiam português, os estadunidenses principalmente, começaram a se perguntar o que significava a expressão e os brasileiros criaram várias versões, todas elas falsas.
Uma das historias inventadas é a versão de que "Cala boca, Galvão" é o novo clipe da cantora Lady Gaga. Começou outra avalanche de tweets e noticias que queriam saber onde estaria a versão oficial do vídeo. Pois um brasileiro criou uma. Em um dia obteve mais de 50.000 reproduções. A versão mais difundida, contudo, é que "Cala a boca, Galvão" faz referência a uma campanha do Galvão Institute, instituto criado para salvar os pássaros Galvão, quase extintos no Brasil. Segundo um vídeo em inglês colocado no Youtube, as aves são assassinadas na época do carnaval e suas penas são utilizadas nas fantasias. Por cada tweet, o instituto ganharia 10 centavos de real (aproximadamente 4 cêntimos de euro). Até agora mais de 180.000 pessoas viram o vídeo.
AGENCIAS - Brasília – El País - 07/09/2009
Tradução de Antonio de Freitas Jr.
O presidente francês Nicolas Sarkozy e seu homólogo brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva assistiram juntos hoje a um desfile em Brasília em comemoração ao Dia da Independência do Brasil, pouco antes da assinatura de uma série de acordos na área de defesa no valor total de uns 12 bilhões de dólares (uns 8 bilhões de euros).
Também, hoje, ambos os mandatários anunciaram oficialmente a compra de 36 caças franceses Rafale para a Força Aérea Brasileira. O preço da compra não foi divulgado, mas se estima que poderia rondar os 3,8 bilhões de reais brasileiros, uns 1,436 bilhões de euros.
Ademais, na manhã de hoje, através de um comunicado, Sarkozy informou a Lula a "intenção da França de adquirir uma dezena de unidades da futura aeronave de transporte militar KC-390 e manifestou a disposição dos industriais franceses em contribuir para o desenvolvimento do programa dessa aeronave". O KC-390, da empresa brasileira Embraer, é um avião militar mediano de transporte com dois motores a reação que ainda se encontra em fase de desenvolvimento. Em virtude do acordo fechado hoje, a França se compromete a colaborar no desenvolvimento do KC-390 com transferências de tecnologia e aportando capacidade de produção.
Estes acordos formam parte de uma série de pactos nas áreas de defesa, cooperação policial, imigração, transporte, agricultura e tecnologia. Sarkozy chegou ontem à capital brasileira acompanhado por uma nutrida delegação integrada por oito ministros, entre eles o de Assuntos Exteriores, Bernard Kouchner. Lula, num gesto pouco usual, esperou o presidente galo no aeroporto da capital, de onde ambos se dirigiram ao Palácio da Alvorada, residência oficial da Presidência brasileira, onde foi oferecido um jantar em homenagem ao visitante.
A delegação encabeçada por Sarkozy, também, formalizará os pactos previamente alcançados para a construção conjunta de um submarino de propulsão nuclear e outros quatro convencionais do modelo francês Scorpene, assim como a edificação do estaleiro onde serão fabricados os submarinos e uma base naval de apoio. Ademais, os convênios também incluem a compra de 50 helicópteros de transporte franceses EC-725 para as Forças Armadas brasileiras, que serão entregues entre 2010 e 2016 por um consórcio formado pela brasileira Helibras e pela europeia Eurocopter, sucursal do grupo EADS.
Ambos os projetos, que incluem a construção dos estaleiros nos quais serão fabricados os submarinos e das fábricas em que serão elaborados os helicópteros, representarão para o Brasil um desembolso de 12,317 bilhões de dólares até 2021, dos quais uns 9 bilhões serão destinados à compra do armamento.
AGENCIAS - Colleville – El País - 06/06/2009
Tradução de Antonio de Freitas Jr.
O Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, chegou hoje em Caen (Normandia) onde participou dos atos comemorativos do 65° aniversario do Dia D. Acompanhado de sua esposa, Michelle, Obama chegou a Caen, onde se reuniu com Sarkozy, a bordo de uma versão mais reduzida de seu avião ‘Air Force One’ tradicional, procedente de Paris.
Antes dos atos oficiais, os dois mandatários mantiveram uma reunião na qual abordaram assuntos como a situação no Oriente Médio, o desafio nuclear do Irã e da Coréia do Norte ou a crise econômica mundial. A respeito da situação em Israel, o Presidente estadunidense expressou seu desejo de que se estabeleçam conversações "sérias e construtivas" para lograr uma solução consensual entre Israel e Palestina. "Não espero que um problema de 60 anos se resolva da noite pro dia, porém, como disse antes, o que espero é que ambas as partes reconheçam que perdem o controle sobre seus destinos", afirmou o Presidente dos EUA, acompanhado do Chefe de Estado francês, Nicolas Sarkozy.
Barack Obama tampouco quis se esquecer da Coréia do Norte e voltou a tachar de "extremadamente provocativa" as últimas ações nucleares do governo de Pyongyang e não pode estar sujeita a "nenhuma recompensa". "Vamos olhar muito seriamente a forma pela qual estudaremos estas questões", declarou Obama aos jornalistas. "Não acredito que continuaremos a seguir por um caminho onde a Coréia do Norte segue desestabilizando a região enquanto nós reagimos como sempre", declarou Obama. "Temos pensado seguir com a política habitual de recompensar as provocações", afirmou. Com relação ao Irã, Obama advertiu que seria "extremadamente perigoso" que o governo de Teerã desenvolvesse uma arma nuclear.
A lembrança dos caídos
As conversas entre Obama e Sarkozy continuaram durante o almoço de trabalho, ao final do qual dirigiu-se até Colleville, onde se encontra o Memorial e Cemitério Americano, para participar das comemorações do Desembarque da Normandia nas praias denominadas Omaha, Utah, Juno, Gold e Sword, que marcou o começo da ofensiva aliada na Europa em 6 de junho de 1944.
"Vivemos num mundo onde as ideologias e as declarações sobre o que é verdade e o que não é competem. Neste mundo, é raro se encontrar com um enfrentamento que fale de algo tão universal como é a humanidade em si mesma. Esse enfrentamento foi a Segunda Guerra Mundial", assegurou Obama em seu discurso. "Então ninguém sabia, mas grande parte do progresso que definiu o século XX, em ambos os lados do Atlântico, começou numa batalha por um pedaço de praia de somente sete quilômetros de comprimento por três de largura", recordou. "Nenhum homem que haja derramado seu sangue ou haja perdido um irmão pode dizer que a guerra é boa, porém todos nós sabemos que essa guerra foi essencial", concluiu Obama cujo avô e o tio-avô participaram do desembarque.
Também participaram dos atos comemorativos o Príncipe Charles da Inglaterra, o Primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, e do Canadá, Stephen Harper, representando os países que participaram do Dia D.
Obama, que na sexta-feira (05/06) visitou na Alemanha o campo de concentração de Buchenwald, tem um interesse pessoal em participar dos eventos de hoje.
Postado por Antonio de Freitas no Periscópio em 6/06/2009 05:30:00 PM
IKER SEISDEDOS / EFE - Madrid – El País - 17/05/2009
Tradução de Antonio de Freitas Jr.
Mario Benedetti, poeta do amor e do exílio, morre em Montevidéu aos 88 anos. Após uma longa doença que tentou varias vezes levá-lo a este ‘best seller’ das letras uruguaias, dos sentimentos, a este popularizador da poesia em espanhol como quase nenhum outro. A morte, ou seja, essa doença pulmonar crônica de que padecia, o levou após sua quarta hospitalização em um ano no hospital Impasa, de Montevidéu.
Premiado em 1999 com o Prêmio “Reina Sofía de Poesía Iberoamericana” e em 2005 com o “Internacional Menéndez Pelayo”, Benedetti abordou todos os gêneros literários, nos quais deixou uma visão crítica de esquerda que lhe levaria ao exílio e a ser, até seus últimos dias, um firme detrator da política exterior dos Estados Unidos. Suas poesias foram cantadas por compositores como Joan Manuel Serrat, Daniel Viglietti, Nacha Guevara, Luis Pastor ou Pedro Guerra, e suas novelas mais famosas levadas ao cine, como ‘La tregua’ (1974) ou ‘Gracias por el fuego’ (1985), a cargo do diretor argentino Sergio Renán.
Este expoente por antonomásia da chamada geração uruguaia de 1945, a "generación crítica", nasceu em 14 de setembro de 1920 em ‘Paso de los Toros’, no Departamento de ‘Tacuarembo’. Em 1928 começou seus estudos primários no Colégio Alemão de Montevidéu’, onde, segundo contava o próprio Benedetti, gostava de escrever em verso as lições e incluso surpreendeu a seus mestres com um primeiro poema em alemão.
As dificuldades econômicas só lhe permitiram cursar um ano de educação secundaria no ‘Liceo Miranda’ e depois teve que ser quase autodidata, compaginando os estudos com o trabalho, que começou aos 14 anos numa oficina de consertos de automóveis. Antes de se dedicar a escrever, Benedett trabalhou de taquígrafo, caixa, vendedor, livreiro, jornalista, tradutor, funcionário público e comerciante. Todos estes ofícios representaram um contato com a realidade social do Uruguai que foi determinante na hora de modelar seu estilo e a essência de sua escritura.
Entre 1938 e 1941 residiu em Buenos Aires e em 1945 ingressou no semanário ‘Marcha’ como redator e publicou seu primeiro livro, ‘La víspera indeleble’, de poesia. Em 1949 Benedetti avançou na sua carreira jornalística com seu trabalho na destacada revista literária ‘Número’, compaginando ao mesmo tempo suas tarefas de crítico com uma carreira imparável como escritor. Assim, em uma década trepidante publicou obras como ‘Esta mañana y otros cuentos’ (1949), ‘Poemas de oficina’ (1956), ‘Ida y vuelta’ (1958) e ‘La tregua’ (1960).
Desde 1952 começou a implicar-se de forma destacada nos protestos contra o tratado militar entre Uruguai e os Estados Unidos. Sua primeira viagem a Europa foi em 1957, como correspondente dos jornais ‘Marcha’ e ‘El Diario’. De 1961 data do livro ‘Mejor es meneallo’, que agrupa suas crônicas humorísticas, firmadas com o pseudónimo de ‘Damocles’. Residiu em Paris entre 1966 e 1967, onde trabalhou como tradutor e locutor para a Radio e Televisão Francesa, e logo de taquígrafo e tradutor para a UNESCO.
Em 1968 fundou na cidade cubana de ‘La Habana’ o ‘Centro de Investigaciones Literarias de la Casa de las Américas’, que dirigiu até 1971, e encabeçou o ‘Departamento de Literatura Latinoamericana de la Facultad de Humanidades y Ciencias de la Universidad de Montevideo’, entre 1971 e 1973. Nos anos 70 desenvolveu uma intensa atividade política, como dirigente do ‘Movimiento 26 de Marzo’, do qual foi co-fundador em 1971 e que represento na ‘Frente Amplio’, coalizão de esquerda que alcançou o poder em 2005.
PARÉNTESIS
Mario Benedetti, Montevideo 2008
Acompáñenme a entrar en el paréntesis
que alguien abrió cuando parió mi madre
y permanece aún en los otroras
y en los ahoras y en los puede ser
lo llaman vida si no tiene herrumbre
yo manejo el deseo con mis riendas
mientras trato de construir un río
en sus nubes los pájaros se esconden
no es posible viajar bajo sus alas
lo mejor es abrir el corazón
y llenar el paréntesis con sueños
los pájaros escapan como amores
y como amores vuelven a encontrarnos
son sencillos como las soledades
y repetidos como los insomnios
busco mis cómplices en la frontera
que media entre tu piel y mi pellejo
me oriento hacia el amor sin heroísmo
sin esperanzas pero con memoria
por ahora el paréntesis prosigue
abierto y taciturno como un túnel
CERRAR LOS OJOS
Mario Benedetti, Montevideo 2008
Cerremos estos ojos para entrar al misterio
el que acude con gozos y desdichas
así / en esta noche provocada
crearemos por fin nuestras propias estrellas
y nuestra hermosa colección de sueños
el pobre mundo seguirá rodando
lejos de nuestros párpados caídos
habrá hurtos abusos fechorías
o sea el espantoso ritmo de las cosas
allá en la calle seguirán los mismos
escaparates de las tentaciones
ah pero nuestros ojos tapados piensan sienten
lo que no pensaron ni sintieron antes
si pasado mañana los abrimos
el corazón acaso de encabrite
así hasta que los párpados
se nos caigan de nuevo
y volvamos al pacto de lo oscuro
PRESAGIOS
Mario Benedetti, Montevideo 2008
Los presagios nos cercan / nos oprimen
pueden llegar con vivas o con lágrimas
son quizá las propuestas del futuro
que acuden con su estilo mesurado
en la vejez / que nos agarra exhaustos
se le meten a uno entre las canas
y al recibirlos con melancolía
les hacemos un sitio en la memoria
los presagios inspiran desconfianza
mueven sus pétalos agonizantes
y van de a poco fabricando olvidos
heridas del amor con cicatrices
presagios son augurios / vaticinios
se entienden con el alma y con la lluvia
y suelen trabajar sobre seguro
no hay presagio más fiable que la muerte
Palavras de Mario Benedetti
«Te dejo con tu vida, tu trabajo, tu gente, con tus puestas de sol y tus amaneceres. Sembrando tu confianza, te dejo junto al mundo, derrotando imposibles, segura sin seguro (...)
Pero tampoco creas a pie juntillas todo. No creas, nunca creas, este falso abandono. Estaré donde menos lo esperes. Por ejemplo, en un árbol añoso de oscuros cabeceos. Estaré en un lejano horizonte sin horas, en la huella del tacto, en tu sombra y mi sombra (...)».
Despedida de Mario Benedetti em 'Chau número tres'.
LA INFANCIA
«La infancia es un privilegio de la vejez. No sé por qué la recuerdo actualmente con más claridad que nunca». «Es a veces un paraíso perdido, pero otras, es un infierno de mierda».
EL APRENDIZAJE
«Mi primer trabajo fue en una empresa de repuestos de automóviles, luego 15 años en una inmobiliaria y después, al periódico —el primero puesto que ocupó fue el redactor del semanario 'Marcha'—; y al tiempo, taquígrafo, porque con un solo empleo no se podía sobrevivir». «He trabajado ocho y diez horas diarias en cosas que no tenían nada que ver con la literatura, empecé a ganarme la vida con ella en el exilio».
EL AMOR
«Yo siempre digo que soy fiel, pero no fanático en el amor».
«Si el corazón se aburre de querer, para qué sirve».
«Porque eres mía, porque no eres mía, porque te miro y muero, y peor que muero si no te miro amor, si no te miro (...)».
Versos de 'Corazón coraza'.
«Mi táctica es mirarte, aprender como sos, quererte como sos. Mi táctica es hablarte y escucharte, construir con palabras un puente indestructible. Mi táctica es quedarme en tu recuerdo. No sé cómo ni sé con qué pretexto, pero quedarme en vos. Mi táctica es ser franco y saber que sos franca y que no nos vendamos simulacros, para que entre los dos no haya telón ni abismos. Mi estrategia es en cambio más profunda y más simple. Mi estrategia es que un día cualquiera no sé cómo ni sé con qué pretexto por fin me necesites», 'Táctica y Estrategia'.
LA POLÍTICA
«Nunca fui comunista, nunca milité en partidos. Estuve algún tiempo en el Frente Amplio, pero como independiente. No sirvo para dirigente. Para un intelectual es muy duro. Me encontré hablando ante 60.000 personas haciendo planteamientos en los que no creía. Me dejaba un malestar de conciencia espantoso. Creo que puedo hacer más políticamente con lo que escribo que desde una tribuna».
EL EXILIO
«Me echaban y me amenazaban de muerte. De Uruguay tuve que irme porque estaban a punto de meterme preso y torturarme. De Buenos Aires, porque una asociación profascista me puso en una lista de condenados a muerte y me dieron 48 horas para que me fuera. Me marché a Perú y me metieron preso sin que yo hubiera hecho absolutamente nada político. Me deportaron a Argentina, donde estaba amenazado de muerte. Me ofrecieron asilo en Cuba, donde dirigí un departamento de literatura en La Casa de las Américas —por primera vez me gané la vida literariamente—. Y de La Habana, a Madrid».
LA POESÍA
«La poesía es el género en el que un escritor interviene más con su propia vida. Los otros géneros son de ficción, la poesía no».
«Un poema lo puedo escribir en un avión, en un fin de semana o mientras espero al destino».
«Mis maestros fueron Vallejo, Neruda, Pessoa y Borges, a quien se le admira por sus cuentos pero se le quiere más por sus poemas, porque se muestra como era, un ser desvalido y frágil».
EL OLVIDO
«El olvido está lleno de memoria —es el título de uno de sus libros—. Está lleno de memoria y esa memoria vuelve a salir».
EL 'DESEXILIO'
«El exilio es el aprendizaje de la vergüenza. El desexilio, una provincia de la melancolía».
Benedetti conseguiu regressar ao Uruguai em 1985. «El país había cambiado después de diez años de dictadura, pero yo también, después de 12 años domiciliado en cuatro países tan distintos. De los gobiernos no se aprende nada, pero de la gente de la calle yo aprendí mucho y entonces volví diferente, más maduro, otra persona, aunque siempre con el arraigo de mi ciudad».
LA RELIGIÓN
«Debo ser una de las personas menos religiosas del mundo. La única religión válida para mí es la conciencia; y la poesía tiene mucha vinculación con la conciencia».
«Yo no sé si Dios existe, pero si existe sé que no le va a molestar mi duda».
LA UTOPÍA
«La utopía es una cosa que debemos mantener. Por definición es algo que nunca se realiza por completo, una cosa que parece imposible y después resulta que se realiza. Siempre digo que los tres grandes utópicos que ha dado este mundo son Jesús, Freud y Marx. Gracias a ellos la humanidad ha dado pasos positivos».
«Aunque de cada utopía se realice un 10%, gracias a ese 10% la humanidad ha mejorado un poco. Yo soy un optimista incorregible».
LA CONCIENCIA
«Las causas en las que he creído y creo han sido derrotadas, pero yo no me siento derrotado en cuanto a mis creencias, en cuanto a mis posiciones ideológicas y seguiré luchando por ellas. Sin éxito, eso sí. Mientras pueda dormir tranquilo, no me consideraré un derrotado total».
EL SOCIALISMO
«Con todos sus defectos, la utopía socialista es la que puede traer bienestar a la Humanidad. Pese al fracaso del socialismo democrático de los países del Este, porque no fueron fieles y desvirtuaron la esencia, yo no me he borrado de las ideologías».
EL TIEMPO
«Cinco minutos bastan para soñar toda una vida, así de relativo es el tiempo».
«Preciso tiempo, necesito ese tiempo que otros dejan abandonado porque les sobra o ya no saben qué hacer con él. Tiempo en blanco, en rojo, en verde, hasta en castaño oscuro. No me importa el color. Cándido tiempo que yo no puedo abrir y cerrar como una puerta», versos del poema 'Tiempo sin tiempo'.
LA MUERTE
«Es tarde. Sin embargo yo daría todos los juramentos y las lluvias, las paredes con insultos y mimos, las ventanas de invierno, el mar a veces, por no tener tu corazón en mí, tu corazón inevitable y doloroso en mí que estoy enteramente solo, sobreviviéndote». Versos de 'Ausencia de Dios'.
«Hay que vivir como si fuéramos inmortales».
«Cuando me entierren, por favor, que no se olviden de mi bolígrafo», sentenciou em 'El Rincon de Haikus'.